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Coluna de Bob Sharp

Fora de rumo

Quando um ônibus interestadual da maior empresa brasileira do ramo provoca um acidente estúpido, ceifando a vida de dois jovens, vemos que estamos diante de um colossal problema. O motorista da Viação Itapemirim, José Antônio Ripardo, de 49 anos, havia tomado o volante na cidade paulista de Registro (SP), por volta de 23 horas, segundo relatos dos passageiros. A troca de motorista no meio da viagem é praticada e rotineira por questão de segurança. O coletivo vinha de Curitiba e se destinava ao Rio de Janeiro. Ao chegar à capital paulista, por volta das 3 horas, tomou a marginal do rio Pinheiros no sentido sul e depois entrou no acesso para a Rodovia dos Bandeirantes, denotando não saber o que estava fazendo.

Para um experiente motorista como José Antônio esse erro jamais poderia ser cometido. Era experiente, dirigia caminhões há 20 anos antes de se empregar na Itapemirim, quatro meses antes. Só que ele logo percebeu o engano e foi aí que a tragédia teve início. Em vez de efetuar o retorno onde fosse possível, o motorista resolveu voltar – pela contramão.

Passageiros perceberam o absurdo e até tentaram demover o motorista da idéia, mas não conseguiram abrir a porta divisória das cabines. O que se seguiu foram cenas de terror para dez veículos, até uma carreta, ao verem um ônibus na contramão em um ponto onde não se espera que isso aconteça. Conseguiram desviar, o que pode ser considerado um milagre, mas os dois jovens no Fiesta, não. Técnicos em informática e músicos amadores, voltavam para casa, no Jaraguá, e perderam a vida num acidente que, repito, foi estúpido por ser totalmente evitável. O próximo retorno estava apenas 2 quilômetros adiante.

Esse lamentável caso comprova que o trânsito brasileiro está seriamente doente. O Brasil, que entrou para o clube dos grandes produtores de veículos há 51 anos e hoje é o sétimo no mundo, devendo passar a quinto em 2008, não soube se preparar para o crescimento da frota. Nem em infra-estrutura, nem na qualificação dos motoristas. É público e notório que o sistema de habilitação está longe de atender as necessidades do nosso complexo sistema de tráfego.

A conscientização dos que estão para iniciar a vida atrás do volante quanto aos deveres, direitos e responsabilidades está aquém do mínimo necessário. A impressão que existe é que esse assunto é apenas um mal necessário, que não é preciso encará-lo com o rigor e a dedicação que merece. No caso dos motoristas de veículos pesados, a obtenção das carteiras de habilitação para dirigi-los, D e E, é relativamente simples. Alguns amigos que a têm me disseram que é “bico”, fácil. Tinha que ser o contrário, duro, difícil.

Os exames, as chamadas provas práticas, requerem pouco do examinando. Nos automóveis, resumem-se a dar a volta numa quadra. Se for usada a terceira marcha é muito. Com a Permissão para Dirigir na mão, o motorista pode usar o veículo em qualquer condição de via e de tempo. No exame de moto, é proibido usar o freio dianteiro, justamente o mais importante.

Como na aviação, é preciso reavaliar periodicamente os motoristas, com prioridade para os de coletivos e caminhões. A habilidade se deteriora com o tempo e doenças podem afetar a capacidade de dirigir. Dá trabalho? Claro, e é preciso muita vontade de mudar o quadro atual e, principalmente, não ter medo de perder votos.

No tocante a fiscalização, tenho dito aqui que é preciso mais rigor, mais eficácia. Infestar o país de câmeras para flagrar excesso de velocidade não vai resolver os nossos graves problemas.

O que não é admissível é iniciar-se a nova praga de trafegar na contramão. No dia anterior ao do revoltante caso relatado, um caminhão trafegou 8 quilômetros pela contramão na Castelo Branco, uma das principais estradas paulistas. Felizmente não houve acidente, mas poderia ter havido. Em fevereiro, um universitário de 27 anos, em aparente atitude suicida, rodou na contramão 4 quilômetros da mesma rodovia até colidir com um caminhão, morrendo na hora. O motorista do caminhão, felizmente, nada sofreu.

Que fiquem de fora do nosso meio os motoristas incompetentes e os suicidas.
Escrito por Bob Sharp às 22:16 - 07/05/2008

É preciso voltar à carga

Não há quem não tenha visto: o carro trafega com um enorme pedaço de cano enfiado por uma janela, mas a peça é tão comprida que boa parte dela fica fora do veículo, meio enviesada. Não é preciso ser perito em segurança de trânsito para saber que isso é muito perigoso. Tanto no caso de o cano esbarrar em um pedestre, ciclista ou motociclista quanto no de ser lançado com violência para a frente num freada mais enérgica ou batida.

Caso também de veículos de serviços de telefonia, TV a cabo e eletricidade, em geral pequenos, que rodam com escadas no teto, cuja fixação não parece segura o bastante para evitar que se projetem numa colisão. Ou caminhões e picapes com carga excedendo o comprimento da caçamba, sinalizada por um pequeno trapo vermelho. Ainda, pedras que caem das carrocerias dos caminhões e danificam vidros de pára-brisa.

Carga que cai de caminhões e ocasiona morte de ocupantes de veículos vem aparecendo nos noticiários com freqüência maior do que deveria. Cai de tudo: tijolos, madeira, bobinas de papel e de aço. Até abóboras, como relatou outro dia um leitor do Diário Catarinense, fato ocorrido na BR-116. Esse problema é sério e requer aten­ção das autoridades. O Conselho Nacional de Trânsito (Contran) editou recentemente a resolução 264, que contempla o transporte de rochas ornamentais, que também caem de vez em quando. Há cerca de um mês o baú de um caminhão se soltou inteiro após o veículo bater na barreira de proteção, na rodovia Presidente Dutra, em Guaratinguetá (SP). O gigantesco objeto atingiu um ônibus e um caminhão. O coletivo tombou e cinco passageiros morreram. Treze se feriram, dos quais três gravemente.

Quando eu era criança, a família estava viajando de carro, e um caminhão seguia à frente carregado com tambores de 200 litros. Um deles se soltou e caiu diante do nosso carro. Meu pai só pôde desviar um pouco e escutamos um “pin” – a ponta do pára-choque tocou de leve o tambor. Nunca me esqueci do susto. Como se vê, carga despencando não é de hoje: isso aconteceu há quase 60 anos.

Não é novidade que o trânsito brasileiro passa por um descontrole galopante. O país não se preparou para o volume de tráfego atual. Tenho dito aqui que está faltando fiscalização, uma coisa bem simples chamada patrulhamento. Daquele à moda antiga, com carros policiais circulando com suas guarnições atentas a tudo. Não adianta espalhar radares e detectores de velocidade para flagrar quem trafega acima do limite ou avança um sinal vermelho se o trânsito não é fiscalizado como um todo. Será isso tão difícil de entender? Caso do estado dos veículos. Como é possível um baú de carga se soltar? Alguma forma de controle do estado da frota, de inspeção veicular rigorosa, tem de ser instituída. Se vai dar trabalho, se há impedimentos legais ou se uma medida dessas seria suicídio eleitoral, não interessa. O fato é que casos como esse, ou o daquela carreta com freio em apenas uma das seis rodas que provocou 27 mortes e feriu 90 pessoas em outubro passado em Santa Catarina, são inadmissíveis. Alguém terá de fazer alguma coisa.

Também há casos de pessoas transportadas na área de carga dos caminhões e picapes. Não há nada mais perigoso – e, no entanto, volta e meia se vê isso nas ruas e estradas. E volta e meia também se lê que um caminhão carregando trabalhadores capotou e vários morreram. Carga é apenas carga, não deve ser perigo. Muito menos quando essa carga é de passageiros.

O problema de alcoolismo ao volante é outro que é muito sério. Não adianta adotar medidas ignorantes como proibir servir bebidas alcoólicas nos estabelecimentos nas rodovias. Fere-se o direito de comercialização de um produto legal e o de quem está na estrada sem dirigir, que por isso pode tomar a bebida que desejar. Pelo jeito, até parece que não há um limite de alcoolemia expresso no rigoroso Código de Trânsito Brasileiro, de 6 decigramas por litro no sangue. Os casos comprovados de embriaguez, que resultam ou não em acidentes, mostram valores muito acima disso. Novamente, o que falta? Patrulhamento.
Escrito por Bob Sharp às 15:43 - 11/04/2008

Ousadia sem tamanho

O anúncio do Nano, o minúsculo carro da indiana Tata, provocou rebuliço na indústria automobilística. Não é a primeira vez que aparece um minicarro, portanto não deveria haver tanto espanto. Só que nesse caso há um componente inédito: preço. O carro básico custará o equivalente a 2500 dólares. É muito barato, mesmo que incida o imposto sobre valor agregado (IVA) da Índia, 12,5%, e o frete, o que deve elevar o preço para algo próximo de 3000 dólares.

Em nossa moeda, seriam 5400 reais – na Índia, bem entendido. Importado para o Brasil, supondo-se que o imposto indiano seja retirado por se tratar de exportação (em geral é assim), em uma conta rápida, a soma incluindo os nossos tributos dá 4300 dólares redondos, algo como acessíveis 7800 reais. Com o frete marítimo, que da Índia para cá não deve sair por menos de 1500 dólares, ou 2700 reais, a conta chega a 10500 reais. Com as margens de importação, treinamento, peças e concessionária, a algo em torno de 14000 reais. Continua barato: pouco mais da metade de um Mille Fire Flex duas portas, que tem preço público sugerido de 22900 reais. Explica-se o frisson em torno do carrinho.

O Nano simboliza a mais direta passagem da moto de baixa cilindrada para o automóvel até hoje. Talvez até da bicicleta. O intrigante é que sua receita nada tem de novidade: motor pequeno e baixo peso. Sem dúvida, o desenho e a manufatura por computador de hoje ajudaram, e muito.

Monovolume, surpreendentes quatro portas, cinco lugares, 580 kg de peso, motor traseiro transversal de dois cilindros em linha arrefecido a água, 624 cm3. Potência de 33,5 cv a 5000 rpm e torque de 4,9 mkgf a 2500 rpm. A relação peso/potência é 17,3 kg/cv. Nada mau: quando o Fusca aportou no Brasil, no início do anos 1950, seu peso/potência era 29,6 kg/cv. Velocidade máxima do Nano: 105 km/h; Fusca 1950, 100 km/h. O consumo é por volta de 20 km/l; Fusca, 14 km/l. Ambos nasceram para ser o carro do povo e foram concebidos com motor traseiro.

Por ser um motor bicilíndrico twin, isto é, os pistões sobem e descem juntos, a vibração é inevitável e normalmente elevada. Pois o motor do Nano possui árvore contra-rotativa de balanceamento, um detalhe que surpreende num carro de 2500 dólares.

Suas dimensões conhecidas até agora são 3,10 metros de comprimento, 1,50 metro de largura e 1,60 metro de altura (2 centímetros menos que o Eco­Sport). A distância entre eixos deve girar em torno de 2,40 metros (a mesma do Fusca), a julgar pelas rodas situadas bem nas extremidades. Como comparação, a distância entre eixos do Omega australiano vendido no Brasil é de 2,91 metros.

O mais notável no preço de 2500 dólares do Nano é seu visual, que exibe certa elegância, obra do instituto I.De.A, da Itália, que trabalhou em conjunto com os engenheiros da Tata.

As rodas é que são mínimas, de 12 polegadas, com pneus 65R12. É um ponto discutível. Os pneus parecem estreitos demais, mas é preciso dirigir o Nano para fazer um julgamento.

Fornecedores, em torno de uma centena, aderiram ao projeto – impossível ignorar um modelo que pretende vender 500000 carros por ano. A gigantesca Bosch, por exemplo, desenvolveu itens especificamente para o Nano, como o corpo de borboleta do sistema de injeção.

Num momento em que os carros tornam-se cada vez mais caros, a notícia do Nano de 2500 dólares só poderia mesmo repercutir estrondosamente nos quatro cantos do mundo. Fora a crucial questão de preço, o Nano surge em meio à preocupação mundial com fornecimento e preço do petróleo e também com os gases de efeito estufa. O pequeno e econômico indiano pode apontar uma saída. Só resta esperar para ver o que vai acontecer quando as vendas começarem no segundo semestre. Será quando os demais fabricantes de automóveis decidirão se correrão ou não em busca do tempo perdido. Se é que já não começaram – a Renault já anunciou projeto semelhante com a indiana Bajaj. Novos tempos?
Escrito por Bob Sharp às 15:37 - 11/04/2008