A temporada 2009 chegou ao seu final com a estréia do circuito Yas Marina, em Abu Dhabi. Com o título já definido, a prova foi quase que uma grande festa para encerrar um ano surpreendente, que teve Button e Brawn como os grandes campeões.
Sem um traçado muito empolgante, o circuito surpreendeu pelas suas instalações suntuosas e a grande novidade ficou pela realização da corrida ao anoitecer. Ou seja, a largada foi dada com luz natural e, a bandeirada quadriculada, com luz artificial.
A corrida em si, primeiro, parecia reservada para um domínio de Hamilton. Mas um problema no freio impedidiu a esperada disparada antes da primeira parada nos boxes e, depois, acabou resultado no seu abandono.
A liderança caiu então no cockpit de Vettel, que sem maiores dificuldades tocou para a vitória. Button ainda ensaiou uma pressão sobre Webber nas voltas finais, mas o australiano se defendeu bem e manteve as posições do pódio como estavam, garantindo a dobradinha da Red Bull. A Button, restou a festa do champagne no pódio, para coroar seu título.
Barrichello deu azar na largada, perdeu parte do bico. Ficou com pouca pressão na dianteira e perdeu posição para Button. Depois, sem muito o que fazer, tanto em termos da corrida como do campeonato, tratou de levar até o final.
Mais atrás, destaque para a sólida corrida de Kamui Kobayashi, que marcou pontos pela primeira vez. Embora tenha sido criticado por outros pilotos pela sua postura agressiva nas disputas de posição, ele já havia feito uma boa apresentação em Interlagos e, agora, repetiu a dose. O japonês, agora, aparece como grande favorito a vaga de titular na equipe Toyota.
Agora, é esperar pelas definições para a próxima temporada. Com relação aos brasileiros, Barrichello deve ser anunciado como piloto da Williams, trocando de posto com Nico Rosberg. Senna já foi confirmado na Campos e resta, ainda, a esperança que Lucas di Grassi e Nelson Piquet acertem com alguma equipe.
PS: Já fazem algumas semanas que eu não consigo fazer uma atualização 'decente' neste blog. Aconteceram algumas mudanças por aqui, novas responsabilidades, metas e rumos, além de muita agitação também na parte pessoal. Em breve, espero retomar a rotina.
Nem se discute que a temporada da Fórmula 1 em 2009 foi generosa em fatos, atos e personagens. Sobraram emoções na pista, mas nos bastidores houve episódios lamentáveis, alguns próximos da pusilanimidade.
Tampouco faltaram grandes desafios de pilotagem e querelas de tapetão, transformando um difusor, de mero componente aerodinâmico, em personagem técnico decisivo na definição dos campeões. Assim, sobrou munição para a análise do campeonato, que é o que nos propomos a iniciar agora – em capítulos --, apelando para o perfil e ações das personalidades da F-1 2009.
Vamos iniciar pelo fim. Focando Kamui Kobayashi, o especialista em sushi, que deixou a cozinha do restaurante paterno em 2004, para torna-se campeão das séries Euro da F-Renault, da F-3 e da GP2 Ásia. Kobayahi é o 22º piloto da saga japonesa na Fórmula 1. Um jovem de 23 anos, de riso fácil e tímido, que disputou os dois últimos grandes prêmios do ano e entrou de prontidão para a celebridade, mas com o futuro comprometido com a retirada da Toyota da Fórmula 1.
Lembro que foi no sopé do monte do Fuji Yama, em 24 de outubro de 1976, um grande prêmio marcado pela decisão do título mundial entre Niki Lauda e James Hunt que testemunhei o início da saga dos pilotos japoneses na F-1. Foi uma corrida atípica, disputada sob um temporal que atrasou a largada em quatro horas, que quatro pilotos japoneses alinharam naquele grid hitórico: Masahiro Hasemi (Kojima-Cosworth KE007), Kazuyoshi Hosiro (Tyrrell-Ford 007), Masami Kuwashima (Wolf-Williams Ford) e Noritake Takahara (Surtees TS19) foram os pioneiros.
Kuwashima não se classificou para largada e Hoshiro teve o motor do seu Tyrrell quebrado em meio à prova. Mas Takahara fechou em 9º e, Hassemi, em 11º. Este último acabou virando herói nacional por ter cravado a volta mais rápida da corrida. Uma façanha que animou a Kojima a dar todas as condições ao projetista Masaro Ono desenhar o novo KE009, sonhando em repetir o sucesso do Honda RA300 V12, o F-1 made in Japan, da década de 60. Um “charutinho” da era romântica das pistas vencedor do GP México de 1965, com Richie Ginther, e o da Itália de 1967 com John Surtees.
Dos 21 japoneses que precederam Kamui Kobayashi, quatro marcaram as presenças de formas diferentes na categoria, mas nenhum deles teve um início tão marcante.
Satoru Nakajima foi o primeiro bota nipônico a disputar a F-1 com regularidade. Teve 80 presenças, entre 1967 e 1971, marcou 16 pontos, e seus melhores resultados foram dois 4º lugares e um recorde de volta no GP da Austrália em 1989. Outra façanha de Nakajima é já ter um filho na F-1, o jovem Kazuky que competiu pela Williams neste ano.
O segundo japonês a marcar na F-1 foi Aguri Suzuki. Participou de 64 GPs, de 1988 a 1993, conquistou 8 pontos e notabilizou-se no GP do Japão de 1990, ao tornar-se o primeiro piloto do país a subir no pódio. Ele fechou em terceiro lugar, secundado a dobradinha brasileira Piquet e Roberto Moreno. Suzuki tornou-se construtor, em 2006, disputou 18 grandes prêmios e marcou 4 pontos.
Ukyo Katayama leva o troféu de piloto japonês recordista em corridas de F-1. Katayama competiu em 97 gps, teimou de 1992 a 1997 e marcou 5 pontos. O melhor resultado foram dois 5º lugares.
Takuma Sato é o japonês de mais sucesso na F-1. Chegou a ser chamado de show-driver pela combatividade e arrojo. Foi o melhor colocado num grid, alinhando na primeira fila, no 2º lugar, no GP da Europa, em Nurburgring; liderou corrida (duas voltas), subiu ao pódio em 3º em Indianápolis, em 2004, e marcou mais pontos do que seus conterrâneos: 44 em, 92 gps disputados. Sato recusa-se a ser chamado de "ex" e está à procura de uma equipe para 2010.
Kamui Kobayashi surgiu como um meteoro, sinalizando que poderia ir além de seus patrícios. Mostrou que tem vontade e arrojo na estréia em Interlagos e talento em Abu Dhabi. Marcou pontos – 6º - na sua segunda corrida e deixou claro que não tem medo de estrelas, ao superar o campeão Jenson Button, numa bela ultrapassagem nas fechadas curvas de Yas Marina.
A F-1 já festejava a descoberta de uma nova promessa e o Japão não lamentava perda um especialista em sushi, quando a Toyota – que seria o time de Kamui em 2010 – anunciou a saída da categoria. Foram-se os anéis, mas Kobayashi continua em cartaz.
Os 22 pilotos japoneses na Fórmula 1: Hiroshi Fushida, Masahiro Hasemi, Kazuyoshi Hoshiro, Noritake Takahara, Masami Kuwashima, Naoki Hattori, Kumitsu Takahashi, Satoru Nakajima, Aguri Suzuki, Ukyo Katayama, Shinji Nakano, Hideki Noda, Toranosuke Takagi, Tachiho Inoue, Toshio Suzuki, Takuma Sato, Yuji Ide, Kohey Hirate, Sakon Yamamoto, Kazuki Nakajima e Kamui Kobayashi.
Diante do desempenho de Luca Badoer como piloto oficial, em Valência e Spa - na média, 2 segundos mais lento por volta que Kimi Raikkonen -, muita gente não entendeu a escolha da equipe pelo seu piloto de provas.
Afinal, depois de todos os anos trabalhando juntos, será que a equipe não conhecia seu potencial? Como poderia ter contribuído no desenvolvimento dos carros com uma pilotagem tão longe do limite? Será que está lá apenas por ser italiano? Ou teria "perdido a mão" por não disputar uma corrida há muito tempo?
Para buscar as respostas, temos de voltar ao início. Luca foi campeão da F-3000 em 1992 (Rubinho foi terceiro naquela temporada). Em 1993, estreou na F-1 pela Lola, passou pela Minardi e terminou como piloto oficial na Forti Corse em 1996. Badoer disputou GPs por equipes pequenas, um dos motivos por não ter marcado nenhum ponto nessas temporadas.
Mas em 1997 foi contratado como piloto de testes da Ferrari para desenvolver seus carros. Assim, Luca esteve presente nos anos de ouro da equipe italiana, durante o período Schumacher, quando ele venceu sete vezes o título de pilotos e o time conquistou oito campeonatos de construtores.
Pude acompanhar o desempenho de Luca como piloto de testes e a confiança da equipe em seu trabalho. Entre 2002 e 2004, como piloto de testes, lembro que a velocidade dele nunca foi questionada. Ele tinha velocidade a ponto de, em alguns treinos, andar próximo a Schumacher. Por vezes liderou tabelas de tempo, ao compartilhar a pista com as outras equipes e pilotos de F-1. Errava pouco e era constante. A essa altura você se pergunta: onde foi parar esse talento?
Sem dúvida, tal perfil não cabe no piloto que vimos em Valência e Spa, ou seja, lento, cometendo vários erros e não conseguindo fazer uma única volta com o ritmo constante. O motivo principal dessa perda de desempenho está na cabeça, no lado emocional, em forma de falta de confiança. Muitos falam que o preparo físico é fundamental para um piloto de F-1, o que é verdade, mas eu sempre disse que psicologicamente o preparo é ainda mais importante.
Vendo o primeiro treino oficial em Valência, reparei no Luca saindo dos boxes e olhando mais para os retrovisores que para a frente (tirava o pé para os outros passarem e só conseguiu completar uma volta acelerando na quarta tentativa). Aí percebi que dificilmente ele conseguiria um bom desempenho, pois a falta de confiança era evidente. E não deu outra...
Quando conto a história da minha carreira a amigos ou em palestras, digo que deixei a Ferrari em 2004 e vim para o Brasil disputar a Stock Car. Isso porque eu não queria perder a motivação de ir para a pista (justificativa que pode soar para alguns como pouco convincente...).
Descobri depois que gosto mesmo é de competir, não só pilotar carros de corrida. Eu estava com o melhor carro do mundo, mas em 95% do tempo testando sozinho, ou seja, não tinha a adrenalina e o desafio da competição. Então voltar às corridas, mesmo em uma categoria tecnicamente inferior, foi fundamental para manter vivo o piloto que há dentro de mim. O que ocorreu com Badoer provou que eu não estava errado. Deixar de competir faz o piloto perder desempenho, garra e superação, características presentes em seu DNA.
Em se tratando de esporte, competição é a alma do negócio. E o simples fato de estar no grid de um GP de F-1 já é digno de respeito e admiração. Poucos conseguem reunir técnica, conhecimento e equilíbrio físico e psicológico para fazer parte desse seleto grupo. Imagine para disputar a ponta, então.