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O importante é competir

20.10.09 - Por Luciano Burti

Diante do desempenho de Luca Badoer como piloto oficial, em Valência e Spa - na média, 2 segundos mais lento por volta que Kimi Raikkonen -, muita gente não entendeu a escolha da equipe pelo seu piloto de provas.

Afinal, depois de todos os anos trabalhando juntos, será que a equipe não conhecia seu potencial? Como poderia ter contribuído no desenvolvimento dos carros com uma pilotagem tão longe do limite? Será que está lá apenas por ser italiano? Ou teria "perdido a mão" por não disputar uma corrida há muito tempo?

Para buscar as respostas, temos de voltar ao início. Luca foi campeão da F-3000 em 1992 (Rubinho foi terceiro naquela temporada). Em 1993, estreou na F-1 pela Lola, passou pela Minardi e terminou como piloto oficial na Forti Corse em 1996. Badoer disputou GPs por equipes pequenas, um dos motivos por não ter marcado nenhum ponto nessas temporadas.

Mas em 1997 foi contratado como piloto de testes da Ferrari para desenvolver seus carros. Assim, Luca esteve presente nos anos de ouro da equipe italiana, durante o período Schumacher, quando ele venceu sete vezes o título de pilotos e o time conquistou oito campeonatos de construtores.

Pude acompanhar o desempenho de Luca como piloto de testes e a confiança da equipe em seu trabalho. Entre 2002 e 2004, como piloto de testes, lembro que a velocidade dele nunca foi questionada. Ele tinha velocidade a ponto de, em alguns treinos, andar próximo a Schumacher. Por vezes liderou tabelas de tempo, ao compartilhar a pista com as outras equipes e pilotos de F-1. Errava pouco e era constante. A essa altura você se pergunta: onde foi parar esse talento?

Sem dúvida, tal perfil não cabe no piloto que vimos em Valência e Spa, ou seja, lento, cometendo vários erros e não conseguindo fazer uma única volta com o ritmo constante. O motivo principal dessa perda de desempenho está na cabeça, no lado emocional, em forma de falta de confiança. Muitos falam que o preparo físico é fundamental para um piloto de F-1, o que é verdade, mas eu sempre disse que psicologicamente o preparo é ainda mais importante.

Vendo o primeiro treino oficial em Valência, reparei no Luca saindo dos boxes e olhando mais para os retrovisores que para a frente (tirava o pé para os outros passarem e só conseguiu completar uma volta acelerando na quarta tentativa). Aí percebi que dificilmente ele conseguiria um bom desempenho, pois a falta de confiança era evidente. E não deu outra...

Quando conto a história da minha carreira a amigos ou em palestras, digo que deixei a Ferrari em 2004 e vim para o Brasil disputar a Stock Car. Isso porque eu não queria perder a motivação de ir para a pista (justificativa que pode soar para alguns como pouco convincente...).

Descobri depois que gosto mesmo é de competir, não só pilotar carros de corrida. Eu estava com o melhor carro do mundo, mas em 95% do tempo testando sozinho, ou seja, não tinha a adrenalina e o desafio da competição. Então voltar às corridas, mesmo em uma categoria tecnicamente inferior, foi fundamental para manter vivo o piloto que há dentro de mim. O que ocorreu com Badoer provou que eu não estava errado. Deixar de competir faz o piloto perder desempenho, garra e superação, características presentes em seu DNA.

Em se tratando de esporte, competição é a alma do negócio. E o simples fato de estar no grid de um GP de F-1 já é digno de respeito e admiração. Poucos conseguem reunir técnica, conhecimento e equilíbrio físico e psicológico para fazer parte desse seleto grupo. Imagine para disputar a ponta, então.

O prazer atrás da esquina

01.09.09 - Por Luciano Burti

Quando se fala em corrida em circuito de rua, já se imagina: falta de espaço, pista escorregadia, ondulações, acidentes, ultrapassagem quase impossível e aí por diante, não? Na sequência vem a questão: qual é o prazer em correr nessas condições? Vamos lá. As corridas em pista de rua acontecem geralmente em cidades que não dispõem de um autódromo. E, justamente pelo circuito estar localizado na rua, o afluxo do público é maior, bem como a atenção da mídia. Assim sendo os patrocinadores conseguem um retorno pra lá de interessante, o que é importante para quem vive do esporte.

Tecnicamente falando, a coisa tem seus desafios, a começar pela pista. Para quem olha de fora parece que o traçado existe naturalmente, mas não é bem assim. O trabalho dos organizadores é gigantesco para montar toda a estrutura. É preciso construir e montar os boxes, a torre para direção da prova, as áreas para convidados e patrocinadores, além de montar arquibancadas, sala de cronometragem, sala de imprensa, ambulatório, área para estacionar os caminhões das equipes, toaletes, lanchonete... Enfim, há muitas ações envolvidas até que seja possível pôr o circo na rua. Um bom exemplo é o GP de Mônaco na F-1 e a corrida de Stock Car em Salvador.

A pista tem o asfalto recapeado, pois o piso das ruas é sempre muito ondulado e com baixa aderência. Depois é necessário cercar a pista com guard rails e muros de concreto, pois, como não existem áreas de escape, essas proteções são um poderoso aliado na segurança. No GP de Mônaco, em 2001, descobri isso na prática quando perdi os freios saindo dos boxes. Se não fosse um bendito muro para segurar o carro...

Em relação aos acertos, o trabalho na suspensão e aerodinâmica também é diferente. Com a baixa aderência do asfalto, curvas muito fechadas e retas curtas, a afinação requer molas e amortecedores bem macios, além do máximo de pressão aerodinâmica. Para os pilotos o desafio é grande. Você tem dificuldade para aprender a pista e encontrar o limite do carro. Cercado por muros em vez de áreas de escape, qualquer errinho é acidente na certa. Então, em vez de usar do arrojo para andar rápido, é preciso empregar mais técnica e atenção. Paciência é um dos segredos.

Outro detalhe que dificulta a vida dos pilotos é a falta de visibilidade na curva. Como os carros de corrida são baixos, os muros e guard rails, que delimitam a pista, acabam se tornando grandes barreiras que tapam sua visão. Você entra na curva sem enxergar onde está a saída. Ao terminar a trajetória, vem a sensação de que poderia ter contornado mais rápido e acelerado mais cedo. É claro que, no momento em que o piloto ganha experiência no traçado, esse limite ideal é alcançado. Mas é preciso tempo para isso.

Outro ponto é a dificuldade para ultrapassar. Falta espaço. Largar na frente é fundamental e em geral você só consegue fazer uma corrida de recuperação quando os rivais cometem erros ou sofrem problemas mecânicos. E, por falar em erros, a chuva é um ingrediente temido por todos. Andar na rua com pista molhada é dificílimo, erros, escorregadas e escapadas não são perdoados.

Assim, chegamos à conclusão de que o prazer de correr na rua é justamente a adrenalina envolvida. O prazer de superar os desafios tem um sabor especial. E conseguir vencer uma prova que atrai tanta atenção é sempre uma emoção a mais. Conhecendo as particularidades de correr nos circuitos de rua, fica mais fácil entender que piloto não é maluco nem masoquista por gostar desse tipo de corrida. Ainda estou para conhecer um deles que não goste de uma dose extra de adrenalina.

Pista (quase) de rua

24.07.09 - Por Luciano Burti
O GP da Hungria, que será realizado neste final de semana, é disputado em Hungaroring. Um circuito travado, com curvas de baixa velocidade, retas curtas, baixa aderência e pouquíssimos pontos de ultrapassagem, ou seja, praticamente uma pista de rua. Tecnicamente falando, os carros que tiveram bom desempenho no Principado de Mônaco podem repetir a mesma performance. Mas devemos lembrar que todos receberam modificações, principalmente na parte aerodinâmica, e por isso podem apresentar um resultado diferente. 

Mesmo assim, eu acredito que as principais equipes irão se destacar, como a Brawn GP, detentora da dobradinha em Mônaco. O carro já se mostrou eficiente com máxima pressão aerodinâmica (exigida em pistas travadas), a tração é um dos seus pontos fortes (fundamental em curvas de baixa velocidade) e a temperatura elevada, esperada na Hungria, deverá ajudar as características do chassi da equipe inglesa (que não consegue aquecer devidamente os pneus em baixas temperaturas).

E a RBR, vencedora nas duas últimas provas, pode dominar mais uma vez. É verdade que as características da pista, analisando o histórico dessa temporada, favorecem a Brawn. Mas, após estrear o novo pacote aerodinâmico em Silverstone, a RBR evoluiu muito, não deu chances para mais ninguém. Então esse GP, com características muito diferentes das provas vencidas pela equipe austríaca, deverá mesmo confirmar se a RBR é mesmo eficiente em qualquer condição ou não.

É verdade que Ferrari e McLaren estão evoluíndo e não devem ser descartadas, mas favoritismo, ainda não. Devemos lembrar que Nelsinho Piquet terá um carro atualizado, igual ao de Alonso, e assim poderá deixar essa fase de boatos para trás. Aliás, o maior domínio que assisti em uma etapa da GP2 foi justamente com Nelsinho em Hungaroring, no campeonato de 2007. Largou na pole-position, venceu as duas provas e ainda cravou a volta mais rápida em ambas. Ano passado, já na F-1, conquistou o sexto lugar comprovando que 'tem a manha' dessa pista. Torcida não vai faltar. 

A equipe do momento

13.07.09 - Por Luciano Burti

A dobradinha da RBR em Silverstone levou muita gente a acreditar que o passeio da equipe austríaca foi devido as características daquela pista. Porem, ontem foi disputado o GP da Alemanha, em Nurburgring. E novamente dobradinha da RBR, mas dessa vez com Webber em primeiro. Isso deixou claro que a RBR deu um grande passo a frente e que atualmente conta com o melhor carro do grid. Nurburgring é um circuito de média velocidade e possui curvas lentas que são muito importantes, então mesmo em um traçado bem diferente de Silverstone, a RBR conseguiu se impor. É verdade que, semelhante ao clima do GP da Inglaterra, a temperatura estava baixa e isso favorece os carros da equipe austríaca, mas acredito que a superioridade foi além desse fator.

E para não dizer que foi apenas falta de performance, devemos destacar alguns vacilos da concorrência. A Brawn GP, única rival com chances de brigar pela vitória, escolheu fazer a estratégia de três paradas (todos os outros seguiram o padrão de duas) e mais uma vez não funcionou (já não havia funcionado para Rubinho no GP da Espanha). Isso custou para Barrichello um pódio praticamente garantido. Hamilton jogou fora as chances de também brigar pelo pódio depois de furar o pneu traseiro, na primeira curva, ao tocar no carro de Webber. E Alonso andou forte na corrida, mas devido o mal resultado na classificação largou em décimo segundo e ficou sem chances de ir alem de um sétimo lugar. Quem não vacilou e andou muito bem foi Felipe Massa. Partiu em oitavo, ganhou quatro posições na largada e manteve um ritmo muito forte durante toda a corrida. Conquistou o terceiro lugar do pódio e para mim foi o destaque da prova.

Assim, Button e a Brawn GP que se cuidem. A RBR vem com tudo e não faltara investimento da Red Bull e o esforço de toda a equipe para lutar pelo campeonato. É verdade que a diferença ainda esta grande, Button tem 21 pontos de vantagem para Vettel, o segundo colocado, e a equipe Brawn lidera o campeonato de construtores com 19.5 pontos de diferença. Mas devemos lembrar que ainda tem muito chão pela frente, faltam oito corridas. E quem achava que o campeonato já havia terminado pode estar enganado.

O mestre da obra

22.06.09 - Por Luciano Burti

Quem viu a dobradinha da RBR no GP da Inglaterra, com Vettel em primeiro e Webber em segundo, pode acompanhar um passeio dos carros da equipe austríaca (austríaca de identidade, mas com sede e integrantes da Inglaterra). E o principal responsável por colocar esses carros nos lugares mais altos do pódio é Adrian Newey, o chefe da parte técnica do time (Chief Techinical Officer).

Obviamente os pilotos também tem muito mérito, principalmente Vettel. Ele conquistou a pole-position, volta mais rápida e vitória, ou seja, não deu chance para ninguém. Sem duvida um futuro campeão.

Mas isso só é possível quando se tem um ótimo carro nas mãos. E por onde passou nos últimos anos Newey conseguiu prover tais maquinas. Na Williams Adrian levou a equipe a vencer quatro campeonatos de pilotos, com Mansell, Prost, Hill e Villeneuve e cinco campeonatos de construtores. Depois passou para a McLaren onde venceu dois campeonatos com Mika Hakkinen e um título de construtores.

E devemos lembrar que até o inicio dessa temporada a equipe RBR nunca vencera um GP. Newey entrou na equipe em 2006 e disse que levaria algum tempo para conseguir chegar às vitórias. Muitos inclusive duvidaram, achando que aquela não era uma equipe com tal potencial e que Adrian apenas aceitara o convite por questões financeiras. Bom, agora com duas vitórias esse ano, sendo duas dobradinhas (a outra no GP da China) ficou comprovado que essa equipe é uma das favoritas ao titulo. No momento a única com real capacidade de derrotar a Brawn GP.

Quanto o restante da corrida destaque para os brasileiros. Rubinho foi muito bem e levou a Brawn GP ao terceiro lugar do pódio (a equipe sofreu com desempenho abaixo da média nesse final de semana e o companheiro Button chegou apenas em sexto lugar) e Felipe Massa fez uma ótima corrida de recuperação conseguindo o quarto lugar ao final da prova. Seu desempenho foi muito superior ao de Raikkonen.

A próxima prova é o GP da Alemanha e veremos se a RBR consegue manter essa vantagem apresentada em Silverstone, ou não. A Brawn GP que se cuide.

Até os estrangeiros se sentem em casa

19.06.09 - Por Luciano Burti

Algo que sempre chama a atenção de todos nós é o destaque do piloto que corre em casa, na pista de seu país. Nós sempre lembramos do piloto brasileiro contar com uma motivação extra por correr em Interlagos. Está com a família e amigos por perto, conhece bem a pista e tem a torcida ao seu favor. Sem dúvida isso mexe com o piloto.

Mas na corrida desse próximo final de semana, o GP da Inglaterra, vários pilotos, mesmo não britânicos, se sentem em casa. Como a Inglaterra se tornou o “berço” do automobilismo mundial, vários pilotos, de diferentes países, fazem a sua formação nas categorias de base por lá. E por isso conhecem muito bem as pistas, o clima inconstante, a cultura do automobilismo inglês e são também conhecidos pela torcida (que muitas vezes torcem por pilotos não britânicos).

No atual grid, já passaram pelo automobilismo inglês os seguintes pilotos: obviamente Button (campeão de F-Ford em 98 e terceiro na F-3 em 99) e Hamilton (campeão da F-Renault 2003), Rubinho (campeão inglês de F-3 em 91), Mark Webber (vice-campeão na F-Ford em 96 e quarto colocado na F-3 em 97), Kimi Haikkonen (campeão da F- Renault em 2000) e Nelsinho Piquet (campeão da F-3 em 2004).

Por isso, todos conhecem muito bem Silverstone, uma pista desafiadora. Tem curvas de alta velocidade, como a Copse, Becketts e Stowe, que exigem equilíbrio do carro e arrojo do piloto. E também um final de volta muito técnico e manhoso, o chamado Complexo, com curvas de baixa velocidade como a Priory, Blooklans e Luffield. O segredo dessa pista é ganhar tempo nas curvas de alta velocidade e não jogar tudo fora quando chegar à parte de baixa, pois passar do ponto de freada ou sair da linha ideal do traçado custa caro.

Devemos lembrar que Silverstone tem características muito parecidas com Istambul, local do último GP. Assim, podemos esperar por um ótimo desempenho da Brawn GP (boa em qualquer pista), a RBR (sempre forte em curvas de alta velocidade) e quem sabe a Ferrari que trará algumas novidades na parte aerodinâmica de seus carros.

Será que Button vencerá mais uma? Força Rubinho...

Na linha dos grandes campeões

08.06.09 - Por Luciano Burti

Quem acompanhou o GP da Turquia pôde presenciar uma vitória de mestre de Jenson Button. O inglês vem fazendo uma temporada brilhante – seis vitórias em sete corridas –, mas o ponto que vem me chamando a atenção é que ele não cometeu nenhum erro até agora.

Um exemplo de como o erro custa caro foi o que aconteceu com Vettel. O piloto da RBR largou na pole, mas saiu da pista ainda na primeira volta e perdeu a liderança para Button. Isso mudou completamente sua estratégia, já que ele largou para fazer três paradas.

Essa parada a mais (em comparação ao padrão de dois pit-stops) só funciona quando o piloto está na frente e com a pista livre. Depois de cair para segundo, Vettel não só deixou de conseguir a ponta como ainda perdeu o segundo lugar para o companheiro de equipe Mark Webber (que fez dois pit-stops).

Rubinho também sofreu com alguns erros, principalmente por parte de seu carro. Já Felipe Massa, mesmo não errando, terminou em um discreto sexto lugar (lembrando que ele venceu três vezes nessa pista). Fez o que pôde, mas a falta de performance de sua Ferrari não lhe deu chances de repetir o desempenho dos últimos anos.

Enquanto isso, Button seguia para a vitória. Assim que assumiu a liderança, andou muito forte, sempre constante e rápido. Soube se defender de Vettel, quando o alemão vinha mais rápido depois do primeiro pit, não dando chances para o piloto da RBR.

E mais, na parte final da prova, reduziu o ritmo justamente para poupar todo o equipamento, principalmente o motor – que deverá ser utilizado na próxima corrida. Veja só: ele administrou o equipamento já pensando na próxima prova.

Assim, Button segue para a corrida em sua casa, o GP da Inglaterra, em um momento especial. Muito confiante, com o
equipamento em ordem e com uma equipe motivada por trás dele. Ou seja, rumo a mais um grande resultado.

Quem Escreve

Luciano Burti

Ex-piloto de Fórmula 1, atualmente disputa o campeonato brasileiro de Stock Car V8.
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