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O prazer atrás da esquina

01.09.09 - Por Luciano Burti

Quando se fala em corrida em circuito de rua, já se imagina: falta de espaço, pista escorregadia, ondulações, acidentes, ultrapassagem quase impossível e aí por diante, não? Na sequência vem a questão: qual é o prazer em correr nessas condições? Vamos lá. As corridas em pista de rua acontecem geralmente em cidades que não dispõem de um autódromo. E, justamente pelo circuito estar localizado na rua, o afluxo do público é maior, bem como a atenção da mídia. Assim sendo os patrocinadores conseguem um retorno pra lá de interessante, o que é importante para quem vive do esporte.

Tecnicamente falando, a coisa tem seus desafios, a começar pela pista. Para quem olha de fora parece que o traçado existe naturalmente, mas não é bem assim. O trabalho dos organizadores é gigantesco para montar toda a estrutura. É preciso construir e montar os boxes, a torre para direção da prova, as áreas para convidados e patrocinadores, além de montar arquibancadas, sala de cronometragem, sala de imprensa, ambulatório, área para estacionar os caminhões das equipes, toaletes, lanchonete... Enfim, há muitas ações envolvidas até que seja possível pôr o circo na rua. Um bom exemplo é o GP de Mônaco na F-1 e a corrida de Stock Car em Salvador.

A pista tem o asfalto recapeado, pois o piso das ruas é sempre muito ondulado e com baixa aderência. Depois é necessário cercar a pista com guard rails e muros de concreto, pois, como não existem áreas de escape, essas proteções são um poderoso aliado na segurança. No GP de Mônaco, em 2001, descobri isso na prática quando perdi os freios saindo dos boxes. Se não fosse um bendito muro para segurar o carro...

Em relação aos acertos, o trabalho na suspensão e aerodinâmica também é diferente. Com a baixa aderência do asfalto, curvas muito fechadas e retas curtas, a afinação requer molas e amortecedores bem macios, além do máximo de pressão aerodinâmica. Para os pilotos o desafio é grande. Você tem dificuldade para aprender a pista e encontrar o limite do carro. Cercado por muros em vez de áreas de escape, qualquer errinho é acidente na certa. Então, em vez de usar do arrojo para andar rápido, é preciso empregar mais técnica e atenção. Paciência é um dos segredos.

Outro detalhe que dificulta a vida dos pilotos é a falta de visibilidade na curva. Como os carros de corrida são baixos, os muros e guard rails, que delimitam a pista, acabam se tornando grandes barreiras que tapam sua visão. Você entra na curva sem enxergar onde está a saída. Ao terminar a trajetória, vem a sensação de que poderia ter contornado mais rápido e acelerado mais cedo. É claro que, no momento em que o piloto ganha experiência no traçado, esse limite ideal é alcançado. Mas é preciso tempo para isso.

Outro ponto é a dificuldade para ultrapassar. Falta espaço. Largar na frente é fundamental e em geral você só consegue fazer uma corrida de recuperação quando os rivais cometem erros ou sofrem problemas mecânicos. E, por falar em erros, a chuva é um ingrediente temido por todos. Andar na rua com pista molhada é dificílimo, erros, escorregadas e escapadas não são perdoados.

Assim, chegamos à conclusão de que o prazer de correr na rua é justamente a adrenalina envolvida. O prazer de superar os desafios tem um sabor especial. E conseguir vencer uma prova que atrai tanta atenção é sempre uma emoção a mais. Conhecendo as particularidades de correr nos circuitos de rua, fica mais fácil entender que piloto não é maluco nem masoquista por gostar desse tipo de corrida. Ainda estou para conhecer um deles que não goste de uma dose extra de adrenalina.

Comentários

Andre - 10.10.09 @ 12:54

Concordo com o Felipe. Só vejo graça nos circuitos de rua quando chove. Acrescentaria ainda como pista fantástica a de Montreal, que infelizmente este ano não está no calendário.

Felipe Fugazi - 02.09.09 @ 13:56

Burti, me perdoe a sinceridade, mas para mim corridas em circuito de rua só servem para fazer a alegria dos patrocinadores e do publico VIP, principalmente se falarmos de Mônaco. As ultrapassagens são quase impossíveis, quem larga na frente tem uma vantagem enorme, só perde por erro próprio ou em um trabalho de pit stop muito bem elaborado pelos outros, o que convenhamos, é uma chatice para quem assiste, seja em casa ou na arquibancada. Eu sou fã de automobilismo desde 1986, e não entendo como Mônaco pode ser contado como membro da Santissima Trindade do Automobilismo junto com Le Mans e Indianapolis, essas sim corridas emocionantes, cheias de ultrapassagens e tudo o que o fã gosta, para mim Silverstone sim deveria ser contada como membro, mas o Bernie vai limar Silverstone do calendario... Deveriam estacionar alguns Iates na beira da pista e trazer os VIPs daí talvez o Bernie repensasse essa maldade... Corrida em circuito de rua só Melbourne, aquilo sim é pista, nem parece que é montada nas ruas.
Quem Escreve

Luciano Burti

Ex-piloto de Fórmula 1, atualmente disputa o campeonato brasileiro de Stock Car V8.
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