Kobayashi e saga japonesa na F-1
Nem se discute que a temporada da Fórmula 1 em 2009 foi generosa em fatos, atos e personagens. Sobraram emoções na pista, mas nos bastidores houve episódios lamentáveis, alguns próximos da pusilanimidade.
Tampouco faltaram grandes desafios de pilotagem e querelas de tapetão, transformando um difusor, de mero componente aerodinâmico, em personagem técnico decisivo na definição dos campeões. Assim, sobrou munição para a análise do campeonato, que é o que nos propomos a iniciar agora – em capítulos --, apelando para o perfil e ações das personalidades da F-1 2009.
Vamos iniciar pelo fim. Focando Kamui Kobayashi, o especialista em sushi, que deixou a cozinha do restaurante paterno em 2004, para torna-se campeão das séries Euro da F-Renault, da F-3 e da GP2 Ásia. Kobayahi é o 22º piloto da saga japonesa na Fórmula 1. Um jovem de 23 anos, de riso fácil e tímido, que disputou os dois últimos grandes prêmios do ano e entrou de prontidão para a celebridade, mas com o futuro comprometido com a retirada da Toyota da Fórmula 1.
Lembro que foi no sopé do monte do Fuji Yama, em 24 de outubro de 1976, um grande prêmio marcado pela decisão do título mundial entre Niki Lauda e James Hunt que testemunhei o início da saga dos pilotos japoneses na F-1. Foi uma corrida atípica, disputada sob um temporal que atrasou a largada em quatro horas, que quatro pilotos japoneses alinharam naquele grid hitórico: Masahiro Hasemi (Kojima-Cosworth KE007), Kazuyoshi Hosiro (Tyrrell-Ford 007), Masami Kuwashima (Wolf-Williams Ford) e Noritake Takahara (Surtees TS19) foram os pioneiros.
Kuwashima não se classificou para largada e Hoshiro teve o motor do seu Tyrrell quebrado em meio à prova. Mas Takahara fechou em 9º e, Hassemi, em 11º. Este último acabou virando herói nacional por ter cravado a volta mais rápida da corrida. Uma façanha que animou a Kojima a dar todas as condições ao projetista Masaro Ono desenhar o novo KE009, sonhando em repetir o sucesso do Honda RA300 V12, o F-1 made in Japan, da década de 60. Um “charutinho” da era romântica das pistas vencedor do GP México de 1965, com Richie Ginther, e o da Itália de 1967 com John Surtees.
Dos 21 japoneses que precederam Kamui Kobayashi, quatro marcaram as presenças de formas diferentes na categoria, mas nenhum deles teve um início tão marcante.
Satoru Nakajima foi o primeiro bota nipônico a disputar a F-1 com regularidade. Teve 80 presenças, entre 1967 e 1971, marcou 16 pontos, e seus melhores resultados foram dois 4º lugares e um recorde de volta no GP da Austrália em 1989. Outra façanha de Nakajima é já ter um filho na F-1, o jovem Kazuky que competiu pela Williams neste ano.
O segundo japonês a marcar na F-1 foi Aguri Suzuki. Participou de 64 GPs, de 1988 a 1993, conquistou 8 pontos e notabilizou-se no GP do Japão de 1990, ao tornar-se o primeiro piloto do país a subir no pódio. Ele fechou em terceiro lugar, secundado a dobradinha brasileira Piquet e Roberto Moreno. Suzuki tornou-se construtor, em 2006, disputou 18 grandes prêmios e marcou 4 pontos.
Ukyo Katayama leva o troféu de piloto japonês recordista em corridas de F-1. Katayama competiu em 97 gps, teimou de 1992 a 1997 e marcou 5 pontos. O melhor resultado foram dois 5º lugares.
Takuma Sato é o japonês de mais sucesso na F-1. Chegou a ser chamado de show-driver pela combatividade e arrojo. Foi o melhor colocado num grid, alinhando na primeira fila, no 2º lugar, no GP da Europa, em Nurburgring; liderou corrida (duas voltas), subiu ao pódio em 3º em Indianápolis, em 2004, e marcou mais pontos do que seus conterrâneos: 44 em, 92 gps disputados. Sato recusa-se a ser chamado de "ex" e está à procura de uma equipe para 2010.
Kamui Kobayashi surgiu como um meteoro, sinalizando que poderia ir além de seus patrícios. Mostrou que tem vontade e arrojo na estréia em Interlagos e talento em Abu Dhabi. Marcou pontos – 6º - na sua segunda corrida e deixou claro que não tem medo de estrelas, ao superar o campeão Jenson Button, numa bela ultrapassagem nas fechadas curvas de Yas Marina.
A F-1 já festejava a descoberta de uma nova promessa e o Japão não lamentava perda um especialista em sushi, quando a Toyota – que seria o time de Kamui em 2010 – anunciou a saída da categoria. Foram-se os anéis, mas Kobayashi continua em cartaz.
Os 22 pilotos japoneses na Fórmula 1: Hiroshi Fushida, Masahiro Hasemi, Kazuyoshi Hoshiro, Noritake Takahara, Masami Kuwashima, Naoki Hattori, Kumitsu Takahashi, Satoru Nakajima, Aguri Suzuki, Ukyo Katayama, Shinji Nakano, Hideki Noda, Toranosuke Takagi, Tachiho Inoue, Toshio Suzuki, Takuma Sato, Yuji Ide, Kohey Hirate, Sakon Yamamoto, Kazuki Nakajima e Kamui Kobayashi.

