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Nove entre dez brasileiros não sabem levar uma criança com segurança no carro. Você é um deles?
Junho 2006

Nove entre dez brasileiros não sabem levar uma criança com segurança no carro. Você é um deles?

Por André Ciasca
Lista de matérias por data:

ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

Que tal uma pesquisa rápida para começar a reportagem? Vamos lá: quando o assunto é levar crianças no carro, você:

1) Obedece às normas de segurança.

2) Não obedece às normas de segurança.

Muito bem! Temos certeza de que você marcou a opção 1. Na verdade, todo mundo diz que transporta a garotada longe dos perigos. E quase todo mundo está errado - o que provavelmente inclui você. Segundo levantamentos recentes, 90% dos brasileiros desconhecem ou aplicam de maneira equivocada as tais normas. Poucos sabem como utilizar corretamente itens ou produtos de segurança infantil. Menos ainda conseguem distinguir uma cadeirinha de qualidade de outra ineficaz. Não se trata de uma discussão acessória. A cada ano, 1200 crianças até 14 anos morrem em acidentes de trânsito no Brasil. Na estimativa do Ministério da Saúde, nove entre cada dez mortes poderiam ter sido evitadas. A mesma conta vale para os 5000 meninos e meninas que ficaram com seqüelas permanentes após os acidentes.

Para ilustrar a situação, eis um caso com final feliz, mas que poderia ter sido trágico. No final de 1998, Sylvia Paula Oliveira e o marido estavam levando a filha Ana Luíza, então com 11 meses, de Belo Horizonte para São Paulo. Como é comum nesses casos, a mãe preferiu viajar no banco de trás, junto com o bebê, que estava bem preso na cadeirinha. Por um momento, Sylvia pensou em pegar a filha no colo. "Era uma viagem longa e achei que ela iria ficar mais confortável", diz Sylvia, que desistiu da idéia. Quilômetros depois, o carro derrapou ao fazer uma curva e rolou por um barranco de 40 metros de altura, capotando três vezes. Ana Luíza sofreu apenas um arranhão na testa, nada mais. "Se ela estivesse no colo, provavelmente eu a esmagaria com o meu corpo durante o
acidente", diz Sylvia. "Minha filha poderia ter ficado inválida se não estivesse na cadeirinha."

Estima-se que sejam vendidas de 10000 a 15000 unidades do produto por ano no país, principalmente nos grandes centros. "As pessoas reconhecem cada vez mais a importância da cadeira. O problema é que elas não têm como distinguir qual modelo é eficiente ou não", afirma Luciana O'Reilly, coordenadora da Criança Segura Safe Kids Brasil, organização não-governamental com sede nos Estados Unidos e que atua em 30 países. Se você também não sabe, não adianta perguntar para as autoridades. Não há uma norma obrigatória regulamentando os requisitos mínimos de segurança numa cadeirinha. Mesmo os fabricantes não chegam a um acordo sobre o tema. Ao lado de produtos importados e de tradicionais empresas brasileiras, existem modelos com os mais heterodoxos sistemas de avaliação, como o da Safe Kid (empresa que não tem ligação com a ONG), uma espécie de coleira corporal cujo dono testou a invenção nas próprias filhas. "Metade dos produtos nacionais nem deveria estar no mercado", afirma Carlos Alberto Halas, gerente de desenvolvimento da Lenox, que tem três modelos de cadeirinhas. "São um engodo, uma enganação."

Halas não fala apenas como concorrente. Durante cinco anos, ele foi o presidente da comissão que reuniu fabricantes, Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (InMetro), Procon, Volkswagen e GM. No final de 1999, a partir dos trabalhos do grupo, foi criada a norma NBR 14400, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que determina os padrões para produzir e certificar os chamados "dispositivos de retenção infantil". A norma tem padrão internacional - é praticamente uma tradução da norma européia, a mais exigente do mundo -, mas não é obrigatória. A resolução 15/98 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que regulamenta o transporte de crianças no carro, diz apenas que menores de 10 anos devem andar no banco traseiro utilizando cinto de segurança ou sistema de retenção equivalente. "Como a resolução não especifica o sistema e é anterior à norma da ABNT, pode-se colocar no mercado produtos sem fazer qualquer tipo de teste", diz Mariano Bacelar, diretor técnico do Instituto de Qualidade do Brinquedo (IQB), braço do InMetro responsável pela certificação de produtos infantis.

Apenas uma cadeira nacional, a Free Way, da Lenox, passou pelos testes exigidos e conseguiu a certificação da ABNT. A empresa faz outros dois modelos que ainda aguardam os testes, mas mesmo assim estão no mercado. "Temos certeza de que eles não apresentam problemas", diz Halas. Nessa questão, é cada um com sua política de vendas. A Brinquedos Bandeirante, por exemplo, não certificou suas cadeiras, apesar de participar da comissão de normatização. "Elas foram montadas de acordo com a norma", afirma José Maria Carlovich, encarregado de desenvolvimento de produtos da empresa. Na Hércules, a empresa decidiu interromper a produção até conseguir chegar aos índices da NBR 14400. É uma atitude corajosa, mas, como diz Celso Braga, gerente industrial da Hércules, precisa de uma contrapartida de outro interessado na questão: o consumidor. "Os pais ainda não têm consciência da importância de adotar um padrão obrigatório de segurança nas cadeirinhas", afirma Braga.

Vale voltar rapidamente à pergunta inicial: você realmente obedece às normas para transportar crianças? Mas, feito isso, as pessoas sabem usar o produto? E só a cadeirinha resolve? Mais uma vez, entramos numa área nebulosa para os consumidores.



Em dezembro passado, o Criança Segura, junto com a GM e a Johnson&Johnson, lançou a primeira etapa de uma campanha nacional de conscientização. Durante um dia, 117 donos de carros e pais de crianças até 10 anos levaram seus veículos para uma vistoria numa concessionária GM de São Paulo. Todos tinham algum tipo de equipamento de proteção infantil, mas 90% haviam instalado o produto de maneira incorreta. Trata-se de um padrão mundial. Num teste equivalente feito com 17500 carros nos Estados Unidos, o total chegou a 85%. Um cinto mal ajustado para segurar a cadeira pode ser a diferença entre um susto e uma tragédia.

O levantamento brasileiro confirmou a força de mitos entre os motoristas quando o assunto é segurança das crianças. Eis os mais fortes, segundo a organização:

Cinto ou cadeirinha, só em estrada, pois na cidade as velocidades são menores.
Cerca de 75% dos acidentes ocorrem num raio de 30 quilômetros da residência do motorista. Num acidente a 50 km/h, uma criança de 22 quilos é arremessada com uma força equivalente a 1 tonelada.

Se forem pequenas, duas crianças podem dividir o mesmo cinto de segurança.
O impacto pode fazer uma delas esmagar a outra.

O moisés, preso com cinto, é suficiente para levar bebês.
O moisés está preso. A criança não. Ela deve ser instalada numa cadeira apropriada.

Ela não cabe mais na cadeirinha. Melhor sentar em cima de uma almofada e usar o cinto de três pontos.
Num acidente, a almofada pode escapar e a criança ser esganada pelo cinto, que bate em seu pescoço. Existem banquinhos apropriados que ficam presos ao cinto.

Como se não bastassem os mitos, ainda existem os mimos. Por vezes, pai e mãe não resistem à choradeira e dengos da prole. Na frente, nem pensar. O Código de Trânsito Brasileiro proíbe e pune os pais abusados com 7 pontos no prontuário e multa de 190 reais. Pela lei, só quando tiverem 10 anos. Especialistas recomendam fazer a seleção pela altura - no caso, quando a criança tiver pelo menos 1,40 metro. Soltá-las no banco traseiro também rende pontos (5) e multa (130 reais), mas muitos preferem arriscar uma punição (que, convenhamos, é bem rara) e se ver livres da gritaria.

E como convencer uma criança a assumir seu devido lugar no carro? Para os pediatras, a criança só pode sair da maternidade numa cadeirinha. Quando começarem os questionamentos, os pais devem usar a autoridade, sempre explicando as razões do uso. "A partir dos 2 anos os pais já podem começar a explicar pela razão. Utilizando uma linguagem que a criança entenda, ela vai aprender e criar a consciência da segurança desde cedo", diz a psicopedagoga Adriana Tavares. "Colocar medo não é correto. É dar informação errada e perder a confiança da criança."

Quanto mais informação, mais gente usará as cadeirinhas. Essa equação aparentemente simples esbarra num grande problema: o preço dos produtos. No Brasil, uma cadeirinha custa de 100 a 600 reais. A Free Way, aprovada pela NBR 14400, custa 250 reais em média. As estrangeiras normalmente têm o selo de aprovação das normas FMVSS 213, americana, ou da ECE-44 européia.

O problema abre espaço para produtos mais em conta, cotados de 20 a 50 reais. Entre eles estão certos cintos especiais que parecem coletes ou suspensórios. Uma tira extra de cinto prende o equipamento ao banco do carro e permite que a criança se movimente. Técnicos e pediatras são unânimes em repudiar a utilização desse tipo de equipamento. Marcelo Bertochi, engenheiro e supervisor de segurança estrutural e impactos da Volkswagen, diz que esses equipamentos só impedirão a criança de voar para fora do carro. "Mas ela vai se chocar com as outras partes internas, como bancos e painel", afirma Bertochi. Do outro lado, Peixoto Bueno, dono da Safe Kid, tem uma tese curiosa para comprovar a eficácia do seu cinto. "Antes de colocar no mercado, eu testei o produto com as minhas próprias filhas, em freadas bruscas", afirma. Pela opinião da pediatra e especialista em medicina de tráfego Regina Pirito, a Safe Kid poderia ter usado outro tipo de cobaia. "Um produto assim é como um cinto de segurança para cachorro", diz a médica.


OS ERROS MAIS COMUNS

Ao carregar os filhos no carro, os pais cometem deslizes simples que podem virar tragédias. Da criança solta no banco à cadeirinha mal instalada, aqui estão três situações perigosas e, infelizmente, corriqueiras no trânsito.


COMO ESCOLHER

APROVADA: dê preferência aos produtos que possuam o selo de certificaçao do InMetro ou do seu país de origem, no caso das importadas.

COMPATÍVEL: algumas cadeirinhas não são compatíveis com todos os carros. Antes de comprar, faça o teste - a maioria das lojas permite.

FECHO: o fecho ideal não permite que apenas uma das tiras do cinto seja presa - é necessário entrelaçar os engates - e deve ser destravado com um toque no botão vermelho.


COMO INSTALAR

NO BANCO: antes de engatar o cinto do carro, pressione a cadeira contra o banco para não haver folgas.

CINTO: as fitas do cinto devem passar sobre os ombros e sobre as saliências dos ossos do quadril, nunca sobre o pescoço ou a barriga.

REGULAGEM: elimine a folga entre a criança e o cinto puxando a fita de ajuste e deixe o regulador de altura - fivela que junta as tiras superiores - na altura do tórax.





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