
Em novembro de 2007, Diogo Cironi, 25 anos, foi ver a prova final da Copa Taquara de Velocidade em Pista de Terra. A corrida mexeu com o jovem trabalhador de uma revenda de automóveis: “Foi demais! Decidi que não podia ficar de fora, e na primeira corrida de 2008 eu já estava no grid”. O entusiasmo de Diogo não é uma exceção. A Copa Taquara é disputada em seis etapas, cinco diurnas e a decisão, à noite. “Nunca temos menos de 5000 pessoas no autódromo”, afirma Tânia Ferreira, dublê de assessora de imprensa e mulher do presidente do Taquara Automóvel Clube, Ney Ferreira Filho.
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A cidade, localizada no pé da Serra Gaúcha, é cercada por municípios com menos de 80 000 habitantes. A pista serpenteia pela encosta de um morro e é cercada por árvores típicas de zonas com temperaturas baixas. Os 14 graus a poucos dias de dezembroreforçam essa idéia. A torre de controle é feita de madeira e lembra o brinquedo Forte Apache. Não há arquibancada. O público se espalha ao redor do traçado. Para se acomodar, vale usar cadeira dobrável, caçambas de caminhão e até teto de trailer.
Famílias inteiras comparecem, mesmo à noite, dando um clima de festa rural difícil de imaginar a apenas 70 quilômetros de Porto Alegre. É um público animado e que demonstra as raízes alemãs na pele, olhos e cabelos claros, nos sobrenomes e no cuidado com a limpeza: todos armazenam o próprio lixo. Ao fim do evento, bastam duas pessoas para catar os restos deixados por algum descuidado.
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Nuvem de fumaça e areia
Está certo que a galera vai disposta a comer poeira, mas o churrasco é fundamental. Antes mesmo de os carros levantarem o pó da pista, uma nuvem vai se formando graças às churrasqueiras portáteis ou improvisadas. Sérgio Ricardo Müller, por exemplo, levou a mulher, os três filhos e um kit-churrasco que ele mesmo fabricou. A churrasqueira já foi tanque de uma picape Chevrolet D20. Os espetos também foram feitos com sobras de carro. Coisa de quem é do ramo. Sérgio é mecânico: “Sou bom desmontando, mas melhor ainda montando”, afirma.
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Um caminhão se destaca. De lado para a pista, ele acomoda cerca de 20 pessoas muito empolgadas. Tem de tudo: homens, mulheres, jovens e crianças. É a torcida organizada de Lásaro Grings, o Risadinha. Ele pilota o Voyage número 33 e está fora da briga pelo título. Ainda assim a torcida prestigia? “Eles são incríveis!”, diz. “Aliás, incríveis mesmo. Nem são da minha cidade: eu sou de Parobé e a maioria é de Sapiranga e Taquara. Como a festa é boa, a torcida vai crescendo independentemente dos meus resulta-dos”, afirma. Bem, certamente é um estímulo muito grande ver o pessoal ali. “Ver é modo de dizer, né? Na verdade não dá para enxergar quase nada, com a fumaça de churrasco e a poeira à noite...”
Diogo Cironi também contribui para lotar o autódromo. Sua torcida particular vem de Gramado, 38 quilômetros serra acima. É pai, mãe, irmã e os amigos. “Sempre tem uns 20”, diz. Para evitar problemas de visibilidade, a mulher fica nos boxes. “Toda vez que eu paro, ela aparece pra dar força.”
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Super-Homem
Quem tenta enxergar tudo é Silvio Holderbaum, locutor oficial da pista. Ele pilota o sistema de som da torre “Forte Apache” e vai abastecendo o público com informações da cronometragem e com o que consegue enxergar dali. Impossível não reparar que ele traja uma camisa do Super-Homem, com direito a capa vermelha. Visão de super-herói? Não. “Na corrida passada eu fui descer daqui e caí da escada. Quando acordei, estava na UTI de um hospital de Porto Alegre. Vim com essa roupa para deixar todos mais tranqüilos. Se eu me desequilibrar, saio voando.”
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Já enxergar como o herói seria ótimo. Enquanto para a corrida noturna de Fórmula 1 em Cingapura havia 1 500 refletores pela pista, colocados a 4 metros um do outro, em Taquara há quatro postes com duas lâmpadas cada. Todos na reta. “Só dá pra ter certeza de quem é quem quando eles passam por aqui”, diz Silvio, enquanto ajeita os superóculos. Ele preenche os períodos de tempo em que narrar é impossível com a interatividade da platéia – garantida com um número de telefone celular disponibilizado para os torcedores mandarem torpedos. “O pessoal gosta de se sentir participando da transmissão e fica um clima legal, bem descontraído.” Súper.
O tamanho do bolso
O programa na noite
taquarense tem a categoria Mini Fórmula Tubular, às 20h, como aperitivo. Duas horas depois vem o prato principal: a categoria Turismo 1600. São 20 carros no grid: Gol, Passat, Voyage e até Chevette. Diogo, o entusiasmado espectador que se transformou em piloto, compete com o Passat número 71. O dinheiro é curto,apesar do patrocínio. “Na verdade, eu tiro quase tudo do meu bolso mesmo. E ele não é grande”, afirma.
Há bolsos bem maiores. Os irmãos Robson e Roberto Walther são patrocinados por uma empresa de refrigeração. A equipe de mecânicos é grande, o equipamento de competição está sempre em dia e tem até motor home próprio. Com o Gol número 26, eles já ganharam o Gaúcho de pista de terra e chegam à prova final da Copa Taquara na liderança. Com a infra-estrutura que têm, poderiam alçar vôos mais altos, mas não querem. “Aqui o público é maior que no estadual de turismo. O pessoal fica mais perto da pista, você sente a vibração”, diz Robson. Para mostrar que não têm medo do asfalto, os irmãos encararam as 12 Horas de Tarumã, tradicional prova no autódromo de Viamão. Chegaram em segundo lugar.
Festa e susto
A largada é antecedida por um show de fogos de artifício. Assim que termina o espetáculo no céu, começa o na terra. São duas horas de disputa, com parada a cada 30 minutos para reabastecimento e troca de pilotos – opcional.
As brigas por posições são acirradas, especialmente entre os cinco Gols que disputam o título. Diogo Cironi e seu Passat sofrem. Depois de 40 voltas, ele é o último. Lanterna? Esse é exatamente o problema: as lanternas traseiras se apagam e ele é obrigado pela direção de prova a parar para consertá- las. Uma vez. Duas. Três. Acaba desclassificado por oferecer risco aos demais pilotos.
Sem problemas na pista, o susto vem de fora dela. Uma roda que, ao se desprender do carro 210, atinge uma espectadora. O acidente provoca a interrupção da corrida para a remoção da vítima a um hospital. Com todos refeitos, recomeçam as emoções.
No fim, os irmãos Walther confirmam o favoritismo e levantam mais um caneco. Já Diogo Cironi, mesmo sem ter uma noite, digamos, iluminada, não se abate. Ele conta que já passou por coisa bem pior: “Já capotei três vezes”. E aí? “Aí desvirei o carro e fui embora! Eu tô aqui é pra acelerar!” Tanto entusiasmo pode ter contagiado um novo Diogo na grande noite da pequena Taquara.
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